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A história pessoal de integração de Artur Domingues

Artur Domingues foi o convidado do “Interkultureller Stammtisch“, uma tertúlia intercultural, que se realizou ontem em Paderborn, durante 90 minutos, nas instalações da “Volkshochschule” (VHS), subordinada ao tema: “Erzähl uns Deine Geschichte” (“conta-nos a tua história”), para contar a sua história.

O Dr. Baris Guldali explicou os moldes em que iria decorrer esta tertúlia, e deu início à mesma, explicando que esta se destina a convidar pessoas exemplares, que se salientam positivamente pela forma como se integraram na comunidade. Acrescentou ainda que a mesma existe desde 2014 e começou por se realizar na “Kulturwerkstatt” desta cidade, tendo passado a realizar-se na VHS, no ano de 2015, sendo uma plataforma de partilha, de debate e troca de ideias, que se realiza 4 vezes por ano. De seguida, fez uma breve apresentação de Artur Domingues, salientando que foi um dos fundadores de “os Lusitanos de Paderborn e.V.”, bem como o facto de pertencer à direção da “Kulturwerkstatt” há cerca de 30 anos, e de organizar desde 1993 as “Noites de Fado” nesta cidade de Paderborn, entre muitos dos atos de voluntariado que pratica.

Artur Domingues começou por agradecer a presença de todos, e deixou um agradecimento muito emotivo e especial aos seus pais, em especial à sua mãe, pela dificuldade que teve durante o parto que, naquele tempo nao conseguiu ter em casa, tendo tido que recorrer ao hospital de Coimbra, cidade onde viveu até 1967. Neste ano mudou-se com a família para Lisboa, cidade onde trabalhava o seu pai. Confessou que nessa altura recebiam muitas visitas, inclusive de pessoas que viviam na Alemanha e que diziam ao seu pai: “se vieres trabalhar para a Alemanha, ficas milionário em poucos anos!”. Em 1972 o seu pai emigrou para a República Federal da Alemanha, mas a realidade que encontrou, estava longe daquela que lhe fora descrita, pois nesta altura muitos emigrantes tinham de partilhar um quarto com três homens e as condições estavam longe de serem as melhores. Recorda ainda que as visitas a Portugal do seu pai eram apenas anuais e passavam demasiado depressa.

No verão de 1980, Artur Domingues quis saber como vivia o seu pai e abandonou o 11.o ano de escolaridade em Portugal. Ainda hoje julga que o tempo que viveu sem o seu pai foi o pior tempo que passou em Lisboa. “Foram anos em que por vezes fomos roubados ou espancados a caminho para a escola”. Assim, considera que vir para a Alemanha foi como “ter um 6 no Totoloto”, recordando que o seu pai lhe comprou uma bicicleta. Na Alemanha aprendeu rapidamente que integração só seria possível “miteinander” (uns com os outros; juntos), e que era urgente aprender a língua alemã. Foi assim que integrou um grupo de 38 jovens de diversas etnias, tendo sido o único que fez uma formação profissional, orgulhando-se do facto de já trabalhar há 37 na mesma empresa.

Como já antigamente considerava que a vida não pode apenas ser feita de trabalho, Artur Domingues, colaborou na organização do “Spielfest” em Paderborn e confessuu que já nesta altura sentiu a falta de um grupo que dançasse. Foi assim que na altura se criou um grupo folclórico com o auxílio do padre tendo sido o nome escolhido “os Lusitanos de Paderborn”, nome escolhido pelo grupo de jovens portugueses, e que eram um grupo de amigos que se juntou em 1983, que tinha como símbolo a “Torre de Belém” e que se caracterizava por dar valor à amizade, à confiança, à fraternidade e à disciplina, não querendo de modo algum excluir-se da sociedade alemã, mas sim dar a conhecer a sua cultura e aprender com a cultura alemã. A este grupo folclórico seguiu-se a organização da 1.a Noite de Fados em 1993, que contou com a presença de cerca de 60 a 70 pessoas, e desde aí, o público tem vindo a aumentar significativamente tendo-se situado entre as 250 a 300 pessoas no ano passado. Para Artur Domingues estas Noites de Fado demonstram na perfeição o que é ser “miteinander”.

Artur Domingues dá muito valor à educação e formação, sendo contra todo o tipo de guetos, e consequentemente os rótulos negativos que se colocam nas pessoas. Considera ser necessário ajudar-se as pessoas e não discriminá-las. Assim, ajuda também pessoas da comunidade portuguesa, acompanhando-as a certos locais e serviços onde faz voluntariamente de intermediário e tradutor.

No seu local de trabalho começa sempre por perguntar como estão os colegas e se ninguém se magoou. Só depois começa a trabalhar. Artur Domingues confessou que se sente muito bem em Paderborn, mas que tem necessidade de matar a saudade que sente de Portugal de tempos em tempos. Acrescentou ainda que considera a Alemanha um país acolhedor, hospitaleiro, sendo de lamentar que uma minoria que considera insignificante, consiga transmitir uma imagem negativa deste país. Artur Domingues disse ser “um granito português, e o que o nosso coração sente, nada tem a ver com a nossa nacionalidade”.

Ao seu retrato falado seguiram-se algumas perguntas do público multicultural presente, cuja curiosidade era saber se os seus filhos cresceram com duas línguas maternas, se se sentem portugueses ou alemães, se se integraram na sociedade alemã e se são tão dinâmicos no que concerne o voluntariado, como o pai. Perante estas questões, Artur Domingues esclareceu que a sua esposa, que muito elogiou, e que veio para a Alemanha com 21 anos de idade, sempre falou português em casa, tendo os seus filhos tido contacto com ambas as línguas, pelo que estão perfeitamente integrados na sociedade alemã. Acrescentou ainda que considera que os seus filhos são portugueses de coração, mas também alemães. Quanto ao voluntariado, disse que os seus filhos o ajudam, mas, ainda não com o ritmo do pai, esperando, no entanto, que algum dia assim seja.

Antes de terminar, os presentes ainda quiseram colocar algumas questões sobre o significado do nosso Fado, pelo que lhes foi explicado que significa destino, e que existe Fado de Lisboa e Fado de Coimbra.
Para terminar, o Dr. Baris Guldali deu por encerrada esta tertúlia que considerou ter sido uma história de vida emocionante, salientando o que Artur Domingues fez pela e para a comunidade.

[redação CL, Mirele Oliveira Costa]

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